No momento, você está visualizando Como a Meta Apostou no Metaverso, Fracassou — e Reinventou o Futuro com IA

Como a Meta Apostou no Metaverso, Fracassou — e Reinventou o Futuro com IA

Em outubro de 2021, Mark Zuckerberg subiu ao palco de um evento transmitido ao vivo e anunciou que o Facebook — a empresa que ele havia fundado em um dormitório de Harvard 17 anos antes — deixaria de existir como conhecíamos. A empresa se chamaria Meta. E o futuro dela seria o metaverso.

O discurso durou mais de uma hora. Era ambicioso, detalhado e absolutamente convicto. Zuckerberg descrevia um futuro em que as pessoas trabalhariam, socializariam, comprariam e se divertiriam em um universo digital tridimensional e persistente — um espaço onde avatares de pessoas de todo o mundo se encontrariam em reuniões virtuais, shows, cafés digitais e mundos completamente construídos pelo usuário.

Dois anos e meio e mais de 40 bilhões de dólares depois, o metaverso não chegou. O que chegou foi uma série de manchetes embaraçosas, queda brutal no preço das ações, demissão de dezenas de milhares de funcionários e a imagem de Zuckerberg andando sozinho em mundos virtuais quase completamente vazios.

O que deu errado? E o que esse episódio nos diz sobre como as grandes apostas tecnológicas funcionam — e falham?

Por que Zuckerberg apostou tudo no metaverso

Para entender a aposta, é preciso entender o problema que ela tentava resolver. Em 2021, o Facebook enfrentava três ameaças existenciais simultâneas.

A primeira era demográfica: jovens estavam abandonando o Facebook em massa. A plataforma havia se tornado, na percepção de adolescentes e vinte-e-poucos, o lugar onde os pais e avós postavam. O TikTok estava capturando a atenção da geração Z de forma que o Instagram e o próprio Facebook não conseguiam replicar.

A segunda era regulatória: depois do escândalo da Cambridge Analytica em 2018 e das audiências no Congresso americano, o Facebook estava sob escrutínio sem precedentes. Havia risco real de regulação que poderia proibir futuras aquisições ou até forçar a separação do Instagram e WhatsApp.

A terceira era tecnológica: a Apple, com a atualização de privacidade do iOS 14.5 em 2021, deu aos usuários de iPhone a opção de não ser rastreados por aplicativos. A maioria escolheu não ser rastreada. Isso destruiu a precisão da publicidade direcionada que era o núcleo do negócio do Facebook — a empresa estimou perda de 10 bilhões de dólares em receita apenas em 2022 por causa dessa mudança.

O metaverso, na lógica de Zuckerberg, era a resposta para todas as três ameaças. Uma nova plataforma que atrairia os jovens. Um novo território tecnológico onde a Meta definiria as regras antes que reguladores chegassem. E um ecossistema de hardware próprio — os óculos Quest — que eliminaria a dependência das regras da Apple e Google.

O que a Meta construiu — e o que os usuários encontraram

O carro-chefe do metaverso da Meta era o Horizon Worlds — uma plataforma de realidade virtual onde usuários podiam criar ambientes, jogar, trabalhar e socializar através de avatares. A Meta investiu bilhões no desenvolvimento e lançou a plataforma para o público geral nos EUA e Canadá em dezembro de 2021.

O que os usuários encontraram foi… decepcionante. Os avatares não tinham pernas — uma limitação técnica que se tornou objeto de piada global. Os mundos eram esparsos e mal-acabados. A experiência de usar o headset Quest por períodos prolongados era desconfortável. E, crucialmente, não havia quase ninguém lá.

Em setembro de 2022, o jornal The Verge revelou um memorando interno da Meta: o Horizon Worlds tinha cerca de 200.000 usuários ativos mensais — uma fração ínfima da base de quase 3 bilhões de usuários do Facebook. Mais constrangedor ainda: funcionários da própria Meta não usavam o produto que eram pagos para desenvolver. Um executivo escreveu internamente: “Nós não gostamos de usar nosso próprio produto.”

Em 2022, a divisão de Realidade Aumentada e Virtual da Meta — a Reality Labs, responsável pelo metaverso — registrou prejuízo operacional de 13,7 bilhões de dólares. Em 2023, outros 16,1 bilhões. No total, entre 2019 e 2023, a Reality Labs queimou mais de 47 bilhões de dólares com perdas acumuladas.

A virada: demissões, pivô e humilhação pública

Em novembro de 2022, Zuckerberg anunciou a demissão de 11.000 funcionários — cerca de 13% da força de trabalho total da Meta. Foi a maior demissão da história da empresa. Em março de 2023, outros 10.000 foram demitidos. O CEO chamou 2023 de “o ano da eficiência” — um eufemismo para corte profundo em projetos e pessoas.

Internamente e externamente, a narrativa do metaverso começou a se desfazer. Analistas calculavam que a Meta havia destruído valor equivalente a toda a capitalização de mercado do Twitter na aposta no metaverso. Acionistas começaram a pressionar abertamente pelo abandono da estratégia.

A humilhação mais simbólica veio de dentro: em 2023, um pesquisador da própria Meta publicou internamente uma análise detalhada de por que o Horizon Worlds havia falhado — argumentando que a empresa havia construído uma solução técnica antes de entender o problema humano que estava tentando resolver. O documento vazou e circulou amplamente na imprensa.

O que mudou a narrativa — e salvou temporariamente a Meta

O que tirou a Meta do pior momento de sua história não foi o metaverso — foi a inteligência artificial. Em 2023, enquanto o ChatGPT transformava o debate público sobre IA, a Meta lançou o modelo de linguagem LLaMA e adotou uma estratégia radicalmente diferente da OpenAI e Google: código aberto.

Ao liberar seus modelos de IA para a comunidade de pesquisadores e desenvolvedores, a Meta se posicionou como a alternativa “aberta” aos sistemas fechados de seus concorrentes. A estratégia gerou goodwill no mundo técnico, acelerou a adoção e deu à Meta uma narrativa de inovação genuína em um momento em que precisava desesperadamente de uma.

As ações da Meta, que haviam caído mais de 70% do pico em 2022, se recuperaram completamente em 2023 — impulsionadas pelos resultados financeiros de publicidade e pelo otimismo em torno da estratégia de IA. Zuckerberg havia, de alguma forma, sobrevivido ao maior fracasso estratégico de sua carreira.

O metaverso está morto?

Não completamente — mas foi redefinido. A Meta continua desenvolvendo os óculos Quest e lançou em 2023 o Quest 3, com capacidades de realidade mista genuinamente impressionantes. Os óculos Ray-Ban Meta, com câmera e IA integrada, venderam além das expectativas. A Apple lançou o Vision Pro em 2024, validando o mercado de computação espacial — mesmo que a preço proibitivo.

O que morreu foi a versão específica do metaverso que Zuckerberg prometeu em 2021: um universo virtual onde a humanidade migraria suas interações sociais. O que sobrevive é algo mais modesto e provavelmente mais real: realidade mista como interface computacional do futuro, sobrepondo informação digital ao mundo físico de formas úteis.

A visão não era necessariamente errada. O timing era. E a execução foi desastrosa.

O que aprender com a maior aposta errada da tecnologia recente

O caso do metaverso da Meta oferece lições que vão além de uma empresa ou de um produto específico.

A primeira: tecnologia não cria comportamento — ela facilita comportamentos que as pessoas já querem ter. O metaverso falhou porque não havia uma demanda real não atendida que ele resolvesse. As pessoas não estavam frustradas por não poder se encontrar em mundos virtuais tridimensionais — estavam felizes com vídeo chamada, mensagens de texto e redes sociais bidimensionais.

A segunda: o tamanho do investimento não valida a aposta. Quarenta bilhões de dólares não tornam uma ideia boa — podem apenas tornar um erro mais caro.

A terceira: até as empresas mais bem-sucedidas do mundo cometem erros estratégicos monumentais. A diferença entre as que sobrevivem e as que não sobrevivem é frequentemente a capacidade de reconhecer o erro e pivotar — antes que o dano seja irreversível.

Zuckerberg apostou o futuro da Meta em uma visão. A visão falhou. E então ele fez algo que poucos líderes conseguem fazer: admitiu o erro, cortou os custos e mudou de direção. Isso não o torna um gênio — mas talvez explique por que ele ainda está no comando.

Gostou? Compartilhe com alguém que se lembra do anúncio do metaverso e quer entender o que aconteceu depois. Explore as outras categorias do Além do Conhecido para mais conteúdo como esse.

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários