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Como a Apple Decide Quando Seu iPhone Vai ‘Morrer’ — O Escândalo do Throttling e o Que Mudou Depois

Em dezembro de 2017, um usuário chamado John Poole publicou um artigo técnico no blog Primate Labs que abalou a indústria de tecnologia mundial. Ele havia descoberto algo que milhões de usuários suspeitavam, mas ninguém havia provado: iPhones mais antigos estavam sendo deliberadamente desacelerados pelo próprio sistema operacional da Apple.

A descoberta gerou processos judiciais em dezenas de países, forçou a Apple a pagar mais de 500 milhões de dólares em acordos e redefiniu o debate global sobre obsolescência programada. Mas para entender o que realmente aconteceu — e o que a Apple omitiu por anos — é preciso começar pelo começo.

O que é throttling e por que a Apple fazia isso

Throttling é o processo de limitar intencionalmente a velocidade de processamento de um dispositivo. Em computadores e servidores, é uma prática comum para evitar superaquecimento. No caso dos iPhones, a Apple começou a aplicar throttling de forma silenciosa a partir do iOS 10.2.1, lançado em janeiro de 2017.

A justificativa técnica apresentada pela Apple depois que o escândalo veio à tona era, em teoria, legítima: baterias de lítio envelhecem e perdem capacidade de fornecer picos de energia. Quando um iPhone antigo tenta executar uma tarefa que exige muita CPU — abrir um aplicativo pesado, processar uma foto, rodar um jogo —, a bateria degradada pode não conseguir fornecer energia suficiente, causando desligamentos inesperados. Para evitar isso, o sistema reduzia a velocidade do processador, mantendo o consumo de energia dentro do que a bateria ainda conseguia fornecer.

O problema não era a solução técnica em si — era o silêncio. A Apple nunca informou os usuários que isso estava acontecendo. Nenhuma notificação, nenhuma menção nas notas de atualização, nenhuma explicação. Os iPhones simplesmente ficavam mais lentos com o tempo, e os usuários não tinham como saber o motivo.

O momento em que tudo veio à tona

John Poole, fundador da Geekbench — um dos benchmarks de desempenho mais respeitados do mundo —, percebeu uma anomalia nos resultados de testes enviados por usuários de iPhone 6s e iPhone 7. Os scores de desempenho variavam muito mais do que o esperado entre dispositivos do mesmo modelo. Ao cruzar os dados com a versão do iOS e o estado da bateria, a correlação ficou clara: quanto mais degradada a bateria, menor o desempenho — e a curva era acentuada demais para ser acidental.

A publicação se espalhou rapidamente pelo Reddit e depois pela imprensa especializada. Em poucos dias, era manchete em todo o mundo. A Apple confirmou a prática em 28 de dezembro de 2017 — mas enquadrou a explicação de forma a minimizar a controvérsia, descrevendo o throttling como um “recurso” para proteger a experiência do usuário.

A resposta do público foi de indignação. Para a maioria das pessoas, a mensagem era clara: a Apple estava tornando iPhones antigos mais lentos para que os usuários se sentissem motivados a comprar modelos novos. A empresa nunca admitiu isso explicitamente — mas a ausência de transparência deixou a interpretação aberta.

Os processos, os acordos e os números

O escândalo gerou uma avalanche de ações judiciais. Nos Estados Unidos, mais de 60 processos foram consolidados em um caso coletivo. Na França, a prática foi investigada como obsolescência programada — que é crime no país desde 2015, com pena de até dois anos de prisão e multa de 5% do faturamento anual.

Em 2020, a Apple fechou um acordo nos EUA pagando entre 310 e 500 milhões de dólares — com cada usuário elegível recebendo cerca de 25 dólares. Na Itália, a empresa foi multada em 10 milhões de euros pela autoridade antitruste. No Chile, Brasil e outros países, investigações foram abertas em diferentes estágios.

A Apple também pagou 113 milhões de dólares em acordo com os procuradores-gerais de 34 estados americanos em 2020 — sem admitir culpa em nenhum dos casos.

O que a Apple mudou depois do escândalo

Pressionada pela opinião pública e pelos processos, a Apple tomou três medidas concretas:

Primeiro, reduziu o preço da troca de bateria de iPhones de 79 para 29 dólares durante todo o ano de 2018 — uma admissão implícita de que muitos usuários haviam sido afetados por baterias degradadas sem saber.

Segundo, lançou com o iOS 11.3 uma ferramenta de diagnóstico de bateria acessível pelos próprios usuários. Pela primeira vez, qualquer pessoa poderia ver o estado real da bateria do seu iPhone e entender se o throttling estava ativo.

Terceiro, passou a exibir uma notificação explícita quando o gerenciamento de desempenho estava ativo — dando ao usuário a opção de desativá-lo, mesmo com o risco de desligamentos inesperados. A transparência que deveria ter existido desde o início foi implementada como medida reparatória.

A questão maior: obsolescência programada é real?

O caso Apple reacendeu um debate que vai muito além de uma empresa específica. Obsolescência programada — a prática de projetar produtos para durar menos do que poderiam, forçando a substituição — é uma acusação que paira sobre toda a indústria de eletrônicos há décadas.

No caso da Apple, a linha entre “proteção da bateria” e “incentivo à troca” é genuinamente tênue. O problema técnico era real: baterias de lítio degradadas causam desligamentos inesperados. A solução técnica também era razoável: reduzir o pico de consumo para evitar o problema. O que foi inaceitável foi a decisão de não contar aos usuários.

Mas a questão estrutural permanece: por que a Apple, e a maioria dos fabricantes de smartphones, torna a troca de bateria tão difícil e cara? Por que o design prioriza leveza e estética em vez de acesso ao componente que mais se degrada com o uso?

A resposta inconveniente é que baterias substituíveis com facilidade reduzem a rotatividade de aparelhos. E aparelhos novos são onde está a maior margem de lucro.

O que o usuário pode fazer hoje

Se você tem um iPhone, pode verificar o estado da bateria em Ajustes > Bateria > Integridade da Bateria. Quando a capacidade cai abaixo de 80%, o gerenciamento de desempenho pode ser ativado automaticamente. Trocar a bateria nesse ponto — em vez de trocar o aparelho — é, na maioria dos casos, a decisão financeiramente mais inteligente.

Para usuários de Android, o cenário é mais fragmentado — cada fabricante lida com a degradação de bateria de forma diferente, e nem todos oferecem ferramentas de diagnóstico nativas. Mas o princípio é o mesmo: a bateria é o componente que define a vida útil real do dispositivo.

Uma lição sobre transparência na era digital

O escândalo do throttling da Apple é, no fundo, uma história sobre confiança. A empresa não foi punida principalmente por desacelerar iPhones — foi punida por fazer isso sem avisar. A decisão técnica pode ser debatida. A omissão, não.

Em um mundo onde bilhões de pessoas dependem de dispositivos que não conseguem abrir, reparar ou completamente entender, a transparência dos fabricantes sobre o que acontece por baixo da tela não é um luxo — é um direito.

E o caso Apple mostrou que, quando os usuários se unem para exigir esse direito, até a empresa mais valiosa do mundo precisa recuar.

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